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sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

O Tempo Não Apaga / The Strange Love of Martha Ivers (1946)

Barbara Stanwyck tinha faro para descobrir novos talentos. Em 1939, ela insistiu que o estúdio desse ao novato William Holden o papel principal em “Conflito de Almas”, e assim nasceu uma estrela. Em 1946 ela fez isso de novo. “O Tempo Não Apaga” apresentou ao mundo uma nova estrela, que ainda não se apagou: Kirk Douglas.

Barbara Stanwyck knew how to recognize a new star. In 1939, she insisted on casting newcomer William Holden in “Golden Boy”, and a star was born. She did it again in 1946. “The Strange Love of Martha Ivers” introduced to the world a new star, one who is still (and not strangely) loved: Kirk Douglas.
Em 1946, Issur Danielovitch, nascido em Nova York em uma família judia com raízes russas, já havia mudado legalmente seu nome para Kirk Douglas. Em 1946, Kirk já havia sido ferido na Segunda Guerra Mundial. Em 1946, Kirk já havia trabalhado no rádio e no teatro. Em 1946, Kirk já tinha um filho de dois anos de idade chamado Michael. E então, em 1946, a amiga Lauren Bacall disse ao produtor de Hollywood Hal Wallis para prestar atenção em Kirk. O que se seguiu foi seu primeiro papel no cinema.

By 1946 Issur Danielovitch, born in a Jewish family with Russian roots in New York city, had already changed his name legally to Kirk Douglas. By 1946, Kirk had been injured in World War II. By 1946, Kirk had made radio and stage work. By 1946, Kirk had a two-year-old son named Michael. And then, in 1946, his friend Lauren Bacall told Hollywood producer Hal Wallis to keep an eye on Kirk. His first film role was what followed.
A história de “O Tempo Não Apaga” começa em 1928, quando a jovem Martha está tentando fugir de sua tirania tia e tutora. O jovem e nerd Walter O’Neil conta onde Martha e o amigo Sam Masterson estão escondidos. Martha é trazida de volta para casa e, após uma briga, mata acidentalmente a tia (detalhe: a tia havia acabado de matar, não acidentalmente, o gatinho de Martha). Sam observa tudo.

The story of “The Strange Love of Martha Ivers” starts in 1928, when young Martha is trying to escape from her tyrannical aunt and tutor. Young and nerdy Walter O’Neill tells the aunt where Martha and her friend Sam Masterson are hiding. Martha is brought home and, after an argument, accidentally kills her aunt (note: her aunt has just killed, not accidentally, Martha’s pet kitten). Sam witnesses it.
O ano agora é 1946. Sam Masterson (Van Heflin), que fugiu ainda criança, está de volta à cidade, mas contra sua vontade. Seu carro quebrou justamente na entrada de Iverstown, e ele precisa deixá-lo em uma oficina para consertar. Já que ele está na cidade, descobre que Martha (Barbara Stawnwyck) é agora uma mulher forte e rica, e casada com Walter (Kirk Douglas), um advogado.

The year is now 1946. Sam Masterson (Van Heflin), who ran away, is back in town, but against his will. His car just happened to break in Iverstown, and he must leave it to be fixed. Since he is in town anyway, he finds out that Martha (Barbara Stanwyck) is a strong, rich woman, now married to Walter (Kirk Douglas), a district attorney.
Sam não quer nem saber do casal disfuncional, mas Martha e Walter acreditam que ele voltou para chantageá-los, já que ele também estava presente na noite da morte da tia. E Sam acaba tendo de ir atrás do poderoso casal, para que eles ajudem uma moça que Sam acaba de conhecer, Toni Marachek (Lizabeth Scott), que acabou de sair da cadeia.

Sam wants nothing to do with their dysfunctional relationship, but Martha and Walter believe he’s back to blackmail them, because he saw everything that happened the night the old aunt was killed. And Sam indeed needs to talk to powerful Martha and Walter, but to save a sweet girl he meets, Toni Maracheck (Lizabeth Scott), who has just been out of jail.
É óbvio que o Novato tinha talento. Barbara Stanwyck lhe disse isso, e eles se tornaram bons amigos. Kirk atuava seguindo um lema: “quando você está interpretando um personagem fraco, encontre um momento em que ele é forte, se você está interpretando um personagem forte, encontre um momento em que ele é fraco”. Walter O’Neil era um personagem fraco e alcoólatra, mas o primeiro no cinema para um ator que ficou conhecido por interpretar tipos fortes.

It’s crystal clear that the newcomer had talent. Barbara Stanwyck told him this, and they became good friends. He played his part following a motto: “when you’re playing a weak character, find a moment when he’s strong, if you’re playing a strong character, find a moment when he’s weak”. Walter O’Neill was a weak alcoholic character that originated a career for an actor who subsequently played stronger characters.
Este é um filme noir soberbo, com uma trilha sonora especialmente arrepiante. Ele merece ser visto simplesmente pela história e pelo desfecho inesquecível, mas para completar este foi também o primeiro passo em uma carreira de várias décadas (carreira que, eu acredito, deveria ter culminado em um Oscar em 1956 quando Kirk interpretou Van Gogh) de um verdadeiro ícone de Hollywood.

This is a superb film noir, with an especially striking soundtrack. It should be worth checking for its plot only and its haunting ending, but it also was the first step in a multi-decade career (that, I believe, should have culminated in an Oscar in 1956, when Kirk played Van Gogh) of a true Hollywood icon.

"The Strange Love of Martha Ivers" is on public domain and can be watched at YouTube and Internet Archive.

This is my contribution to the Kirk Douglas 100th Birthday blogathon, hosted by Karen at Shadows and Satin.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Prisioneiro do Passado / Dark Passage (1947)

Bogie e Bacall, juntos novamente, na vida e nas telas. O belo e talentoso casal fez quatro filmes juntos, e o noir “Prisioneiro do Passado” é o terceiro deles. Não é tão romântico e cheio de flertes quanto “Uma Aventura na Martinica” (1944), nem tão labiríntico quanto “À Beira do Abismo” (1946), mas é um filme que grita noir – da melhor maneira possível.

Bogie and Bacall, together again, in life and on the screen. The beautiful, talented couple starred in four films together, and the noir Dark Passage is the third of the list. It’s not as romantic and flirtatious as To Have and Have Not (1944), nor as labyrinthic as The Big Sleep (1946), but it screams noir – in the best way possible.
Este é o famoso filme que começa com o ponto de vista do protagonista, que está fugindo da prisão de San Quentin dentro de um barril. Mas não acaba aí. Por quase 40 minutos vemos a maioria das cenas através da perspectiva dele, exceto quando Irene Jansen (Lauren Bacall) está dirigindo – aí retornamos ao ponto de vista de terceira pessoa. Quando chegamos à marca de 37 minutos, finalmente vemos o rosto de Bogie, mas coberto de ataduras. Seu personagem, Vincent Parry, foi condenado à prisão perpétua por ter matado a esposa. Quando ele foge, lhe oferecem uma cirurgia plástica para que ele despiste a polícia.

This is the famous picture that begins with the viewpoint of the leading man, who is escaping San Quentin inside a barrel. But it doesn't stop there. For nearly 40 minutes we see most of the scenes from his perspective, except the ones in which Irene Jansen (Lauren  Bacall) is driving – then we get back to the regular third-person viewpoint. When we reach the mark of 37 minutes, we finally see Bogie's face, but covered with bandages. His character, Vincent Parry, was imprisoned for life after being found guilty of killing his wife. When he ran away, he was offered a plastic surgery to escape the police.
Vincent encontra uma galeria de personagens curiosos pelo caminho. Baker (Clifton Young), o primeiro a lhe dar uma carona, percebe que ele é o fugitivo por causa da descrição que ouve no rádio. Vincent o deixa inconsciente e escapa. Irene leva Vincent ao apartamento dela em São Francisco e lhe compra roupas novas. Mais tarde, descobrimos que ela faz isso como parte de uma redenção: o pai dela foi preso acusado de matar a esposa e morreu na prisão. Irene diz que o pai era inocente, e se interessou por Vincent devido às semelhanças entre os dois casos. 

Vincent meets odd helpers in his way. Baker (Clifton Young), the first man who gives him a ride recognizes his description on the radio, and realizes he is the fugitive. Vincent knocks him unconscious. Irene takes him until her apartment in San Francisco and buys him new clothes, and later we find out she's doing it as a kind of redemption: her father was arrested for killing her stepmother and died in prison. She claims Mr Jansen was innocent, and chose Vincent, because of the similarities between the cases, to help him.
THOSE EYEBROWS
Vincent sempre pode contar com seu velho amigo George (Rory Mallinson), o trompetista, para ter onde se esconder. Sam (Tom D’Andrea), o taxista, é um homem estranho e solitário que percebe que Vincent está com problemas e lhe arranja uma cirurgia plástica em tempo recorde. O doutor Walter Coley (Houseley Stevenson), um médico meia-boca como era de se esperar, é sinistro mas faz um bom trabalho. Afinal, passar por uma cirurgia e ficar com o rosto igual ao de Humphrey Bogart é sempre um upgrade, certo?

Vincent can always count on his old friend George (Rory Mallinson), the trumpet player, to provide a place to hide. Sam (Tom D’Andrea), the taxi driver, is an odd and lonely type who can see that Vincent is in trouble, and arranges the plastic surgery for him. Doctor Walter Coley (Houseley Stevenson), a back-alley doctor as expected, is sinister but does a good job. After all, undergoing a surgery and ending up with Humphrey Bogart's face is always an upgrade, right?
On set
“Prisioneiro do Passado” nos faz sentir emoções contraditórias. Nós ouvimos nos primeiros minutos que Vincent foi condenado à prisão perpétua por ter matado a esposa, mas torcemos por ele – em absoluto porque ele é o anti-herói noir, em particular porque ele é Bogart. A câmera subjetiva é um recurso brilhante e desejamos que o filme inteiro seja assim, e ao mesmo tempo mal podemos esperar para ver o rosto tão familiar de Bogart.

Dark Passage is a film that makes us feel contradictory emotions. We hear in the first minutes that Vincent got a sentence of life in prison for killing his wife, but we root for him – in general because he's the noir anti-hero, in particular because he's Bogart. The subjective camera resource is brilliant and we wish the whole film is shown this way, but at the same time we can't wait to see Bogart's familiar face.
Com os personagens coadjuvantes, nos incomodamos com Madge (Agnes Moorehead), a antipática “amiga” de Irene que foi uma das principais testemunhas no julgamento contra Vincent. Se você está mais acostumado a ver Agnes como Endora na série de TV “A Feiticeira”, você terá, como eu tive, uma bela surpresa ao conhecer sua habilidade como atriz.

With supporting characters, we get annoyed with Madge (Agnes Moorehead), Irene's unpleasant 'friend' who was one of the key witnesses in the judgment against Vincent. If you are most familiar with Agnes as Endora in the TV series Bewitched, you’ll be, like I was, surprised by her acting range.
“Prisioneiro do Passado” é um filme à frente do seu tempo. O fato de que o rosto de Bogart é visto totalmente sem ataduras apenas após 62 minutos enfureceu Jack Warner. O público, sem estar preparado para o formato e ainda amargando o fato de que Bogie e Bacall defenderam os “10 de Hollywood” – 10 funcionários de trás das câmeras acusados de serem comunistas – fez o filme ser um fracasso de bilheteria. Mas “Prisioneiro do Passado” não merecia este destino. É uma bela mistura de romance e suspense. E é um noir de alta qualidade, tanto que eu disse a mim mesma quando o filme acabou: “como eu demorei tanto para ver esta obra-prima?”.

Dark Passage was a film ahead of its time. The fact that Bogart’s face is only fully seen, without bandages, after 62 minutes, made Jack Warner sour. The public, not ready for the new storytelling and still bitter because Bogart and Bacall defended the ‘Hollywood 10’ – 10 behind-the-camera professionals accused of being communists, made the film a box office failure. But Dark Passage didn’t deserve that fate. It is a mix of romance and thriller done right. It is a high-quality noir, and one I exclaimed after the film was over: “how come I haven’t watched this earlier?”.

This is my contribution to the Agnes Moorehead blogathon, hosted by superfan Crystal at In the Good Old Days of Classic Hollywood.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Sábado Alegre / Hot Saturday (1932)

ESTE ARTIGO CONTÉM SPOILERS.

THIS ARTICLE HAS SPOILERS.

Há algo de encantador em cidades pequenas. As casinhas com cercas baixas. As lojas passadas de pai para filho. O parque ou o lago onde acontecem todas as funções sociais. O fato de que todos se conhecem. E há algo de podre nas cidades pequenas também, e justamente pelo motivo de que todos se conhecem. É terreno de fofoca, inveja, reputações destruídas por boatos. A reputação de Ruth (Nancy Carroll) em “Sábado Alegre” é destruída justamente por um boato. Se eu fosse Ruth, nem me importaria: afinal, o boato envolve ninguém mais ninguém menos que Cary Grant.

There is something charming in small towns. The little houses with low fences around. The mom and pop stores. The park or lake where all the picnics happen. The fact that everybody knows everybody. And there is something rotten in small towns as well, also because everybody knows everybody. Small towns are ground for gossip, jealousy, are places where reputations are destroyed by rumors. Ruth’s (Nancy Carroll) reputation in “Hot Saturday” is destroyed by a rumor. If I were Ruth, I wouldn’t care: after all, the rumor involves Cary Grant!
Ruth trabalha no banco e é cobiçada por todos os funcionários do sexo masculino. Ela rejeita diversos convites para sair, mas finalmente cede quando Conny (Ed Woods, que interpretou o irmão bonzinho de James Cagney em “Inimigo Público” em 1931) a convida para ir ao clube numa tarde de sábado.

Ruth works at the bank and all the male employers are interested in her. She refuses several approaches, but finally capitulates when Conny (James Woods, who played James Cagney’s good brother in ‘The Public Enemy” in 1931) invites her to go to the club on a Saturday afternoon.
Naquele sábado alegre, em uma bela casa em frente ao lago, os jovens se divertem, nadam, passeiam de barco e comem. Mais tarde, eles vão para um baile. O dono da casa é Romer Sheffield (Cary Grant), que tem a má fama de ser um garanhão que não espera até a noite de núpcias para ter intimidade com suas namoradas.

On that hot Saturday, in a beautiful house near the lake, the young people have fun, swim, ride boats and eat. Later they go to a dancing house. The owner of the house by the river is Romer Sheffield (Cary Grant), who is a known womanizer who can’t wait until the wedding night to get intimate with his girlfriends.
Romer não vai ao baile, mas Ruth e Conny vão. Pouco depois, eles pegam um barco e Conny tenta beijar Ruth contra a vontade dela. Ela resiste e sai correndo, e em busca de ajuda vai até Romer, que pede que seu motorista a leve de volta para casa. Mas Conny não vai deixar barato: com a ajuda de Eve Randolph (Lilian Bond), a ciumenta filha do dono do banco, ele espalha um boato sobre Ruth.

Romer doesn’t go dancing, but Ruth and Conny do. A little later, they catch a boat and Ronny tries to kiss Ruth against her will. She resists, runs away and asks Romer for help. He listens to her, comforts her and asks his driver to take her home. But Conny is planning revenge: with the help of Eve Randolph (Lilian Bond), the bank owner’s jealous daughter, he starts a rumor about Ruth.
Logo todos na cidade ouvem a fofoca: Ruth passou a noite com Romer. Cada um que espalha o boato adiciona um toque de malícia. Ruth é demitida e se torna pária em sua cidade. Vítima da hipocrisia, ela vê uma chance de redenção em um velho amigo de infância, Bill Fadden (Randolph Scott), que confessa que sempre foi apaixonado por ela. Ruth decide se casar com ele. Mas será que ela o ama de verdade?

Soon everybody in town know about the gossip: Ruth spent the night with Romer. Each person adds a new spicy detail when spreading the rumor. Ruth is fired and becomes persona non grata in the city. A victim of hypocrisy, she sees a last chance of redemption in her childhood friend Bill Fadden (Randolph Scott), who confesses he has always been in love with Ruth. She decides to marry him. But is it true love?
A construção da história até chegar ao clímax – o ostracismo de Ruth – é lento, levando 40 minutos. Sobram apenas mais 32 para a história ser finalizada. Mas que final mais deliciosamente... pre-Code!

Building up the story until the clímax – that is, Ruth’s ostracism – takes 40 minutes. We have only 32 more minutes left until the end. But the end is deliciously… pre-Code!

Há uma cena em especial que grita pre-Code: vemos Ruth trocando de roupa, ficando apenas com um saiote quase transparente. E ela faz isso logo depois de tirar, à força, os shorts que a irmã pré-adolescente havia pegado de sua gaveta. É uma sequência que deixaria William Hays de cabelo em pé.

There is one scene in particular that screams ‘pre-Code’: we see Ruth changing clothes, and she wears a near transparent negligee. This happens right after Ruth violently undresses her teenager sister because the little girl had stolen her new shorts. It is a scene to freak William Hays out.
Cary Grant, pela primeira vez com seu nome no topo dos créditos, é muito sedutor já aos 28 anos. Além disso, ele aparenta usar bastante lápis de olho e rímel, que deixam seu olhar penetrante. Randolph Scott tem um personagem que consegue ser denso mesmo com poucas cenas, e é interessante ver os dois melhores amigos na vida real em uma pequena disputa cinematográfica pela mesma mulher. Eles fariam mais um filme juntos, “Minha Esposa Favorita” (1940).

Cary Grant, first-billed for the first time in his career, is a very seductive 28-year-old. And he achieves a powerful look in his eyes by, apparently, using a lot of makeup and mascara. Randolph Scott plays a character that could be dense and well-constructed even with little screen time. It’s interesting to see the two best friends in real life competing for the same woman on the screen. Grant and Scott would make one more film together, “My Favorite Wife” (1940).
O final é redentor, e muito moderno e necessário. Nancy Carroll arregala os olhos e percebe que precisa cuidar de sua própria vida, capitanear seu destino sem se importar com o que os outros pensam. É impressionante ver que um filme de 1932 tem temas tão atuais. É triste perceber que as questões (especialmente para mulheres) são as mesmas de 80 anos atrás. E é mais triste ainda saber que a sociedade continua hipócrita, mas sem a presença de Cary Grant para embelezar o mundo.

The ending is redemptive, very modern and necessary. Nancy Carroll has her eyes wide open when she realizes that she must mind her own business and live her life without bothering about the opinions of others. It’s surprising to see that a film from 1932 has such a modern theme. It’s sad to see that some troubles (for women, in special) are the same as 80 years ago. And it’s even sadder to know that society has still a lot of hypocrisy, and Cary Grant is not here anymore to make the world a little more pleasant.

This is my contribution to the Cary Grant blogathon, hosted by Laura at Phyllis Loves Classic Movies.

domingo, 20 de novembro de 2016

Chicago (1927)

O tema era amizade. Dezenas de filmes passaram pela minha cabeça. Todos com algo em comum: eram sobre amizade entre homens. Há muitos filmes sobre “bromances”, camaradas, grupos de homens cultivando a amizade. E há poucos clássicos sobre amizade entre mulheres, sendo “Os Homens Preferem as Loiras” (1953) o mais conhecido deles. Quando duas mulheres são colocadas lado a lado, com a mesma importância, em geral elas são rivais no amor, e não amigas.  Será que só Lorelei e Dorothy conseguiram ser amigas num filme clássico?

The subject was friendship. I could think of dozens of movies. All of them with one thing in common: they were about friendship between men. There are a lot of films about bromances, camaraderie, groups of men who are good friends. And there are few classic films about friendship between women, and “Gentlemen Prefers Blondes” (1953) is the best known of them all. When two women are put side by side, with the same importance, in general they are rivals, not friends. Were Lorelei and Dorothy the only two girl pals in classic film?
Havia muitas duplas ou trios de amigas na era pre-Code, mas uma sempre se sobressaía e a outra ficava como alívio cômico, de lado, às vezes até esquecida ao longo do filme. É isso que acontece, por exemplo, em “Três... Ainda é Bom” (1932), com a personagem de Ann Dvorak ganhando destaque em detrimento das amigas Bette Davis, a moça simples, e Joan Blondell, a amiga bem-humorada.

There were a lot of female duos and trios in the pre-Code era, but one of them was the lead and the other was only comic relief and could be forgotten as the movie progressed. This happens, for instance, in “Three on a Match” (1932), with Ann Dvorak’s character being the lead and his other two girl friends, Bette Davis, the simple girl, and Joan Blondell, the wisecrack friend, being left behind.
Não há poucos filmes sobre amizade feminina porque não havia amizades femininas inspiradoras na Old Hollywood. Podemos citar, por exemplo, as amigas Joan Crawford e Barbara Stanwyck, e também Bette Davis e Olivia de Havilland. Aparentemente, as rivalidades inspiravam muito mais que as amizades.

We can’t blame the lack of films about female friendship on the inexistence of real inspiring female friendships in Old Hollywood. We can cite BFFs Joan Crawford and Barbara Stanwyck, and also Bette Davis and Olivia de Havilland. But, apparently, rivalries were much more inspiring than friendships.
E é por isso que a minoria das produções mais famosas da Old Hollywood passam no teste de Bechdel. Poucas mulheres protagonistas, ou mesmo relevantes na história. A maioria das personagens femininas só existiam porque gravitavam ao redor de um homem, e duas personagens importantes femininas em um mesmo filme só podiam estar lá para disputar o personagem masculino. Mas vamos ao nosso filme.

And that’s why few Old Hollywood productions pass the Bechdel Test. Few female leads, or even few females with an important role. Most female characters existed because they gravitated around a man, and two important female characters in the same film could only be there to fight for the male character. But let’s see our film of choice.

O nome “Chicago” deve lembrar para você aquele musical que ganhou o Oscar de Melhor Filme em 2003 – tirando o prêmio merecido de “Gangues de Nova York” do deus Scorsese. Não é coincidência que o filme de 1927 tenha o mesmo título: é (quase) a mesma história.

The name “Chicago” may remind you of that musical that won the Best Picture Oscar in 2003 – stealing the deserved prize from “Gangs of New York”, directed my Our Lord Scorsese. It is not a coincidence that the 1927 film has the same title: it is (almost) the same story.
Amos Hart (Victor Varconi) é o marido perfeito, mas isso não impede sua esposa Roxie (Phyllis Haver) de ter um amante, Casely (Eugene Pallette). Após uma discussão sobre dinheiro, Casely anuncia que vai embora e Roxie, irada, atira nele. Desesperada por tê-lo matado, ela liga para Amos, que está disposto a assumir o crime mesmo depois de descobrir que Roxie o traía.

Amos Hart (Victor Varconi) is the perfect husband, but this doesn’t stop his wife Roxie (Phyllis Haver) from having a lover, Casely (Eugene Pallette). After an argument about money, Casely says he’ll leave Roxie and she, full of rage, shoots him. Desperate, she calls Amos, who is willing to confess the crime even after he finds out that Roxie was cheating on him.
Mas uma jogada de um investigador faz Roxie confessar, sem querer, que foi ela que deu o tiro, e ela vai para uma cadeia feminina. Amos precisa de cinco mil dólares para pagar um advogado para defendê-la no tribunal. Roxie vê tudo isso como um jeito ótimo de se tornar famosa.

But an investigator’s move leads Roxie to confess that she was the one who shot Casely, and she goes to an all-female prison. Amos needs five thousand dollars to pay a lawyer to defend her at the court. Roxie sees the entire situation as a great way to become famous.
Onde entra a amizade na história? Este é o problema: ela não entra. Minha intenção era ver como a relação de frenemies de Roxie Hart e Velma Kelly foi mostrada no filme de 1927, mas Velma, interpretada por Julia Faye, tem apenas uma cena, na qual provoca Roxie e as duas acabam brigando na cadeia.

Where is friendship in our story? That’s the question: it isn’t there. My intention was to see how the frenemies relationship between Roxie Hart and Velma Kelly was portrayed in the 1927 film. However, Velma, played by Julia Faye, has only a scene, in which she teases Roxie and the two end up fighting in jail.
GIF via Movies, Silently
A história voltou às telas como comédia em 1942, sob o título “Roxie Hart”. Ginger Rogers vive Roxie no filme, e mais uma vez Velma aparece apenas para brigar com nossa protagonista por causa de popularidade.

The story went back to the screen as a comedy in 1942, under the title “Roxie Hart”. Ginger Rogers plays Roxie in the movie, and once again Velma is there only to fight with our lead because of popularity.
A peça de teatro foi escrita por uma mulher. A história foi adaptada para as telas em 1927 por uma mulher. Mas a peça de teatro não é igual ao musical conhecido: ele veio bem depois. A dramaturga, repórter e roteirista Maurine Dallas Watkins faleceu em 1969, e pouco depois os direitos de sua peça foram vendidos para Bob Fosse, que idealizou o musical como o conhecemos – e que serviu de base para o filme de 2002.

The theater play was written by a woman. The story was adapted to the screen in 1927 by a woman. But the theater play is not the same as the well-known musical: it came years later. The play writer, reporter and screenwriter Maurine Dallas Watkins died in 1969, and soon the rights for her play were sold to Bob Fosse, who idealized the musical as we know it – the one that was the basis for the 2002 film.

Neste filme, Roxie (Renée Zellweger) e Velma (Catherine Zeta-Jones) têm uma relação conturbada. Velma é o ídolo de Roxie, Roxie tenta ser amiga dela ao chegar à prisão, mas é esnobada. A partir de então elas começam uma disputa por espaço na mídia, mas ao final se tornam amigas.

In this film, Roxie (Renée Zellweger) and Velma (Catherine Zeta-Jones) have a difficult relationship. Velma is Roxie’s idol, Roxie attempts to become friends with her when she arrives in the prison, but she is snobbish. From then on they start a dispute for media space, but in the end they become friends.
O filme de 1927 foca no sacrifício dramático de Amos, interpretado pelo belo húngaro Victor Varconi, e deixa Roxie como personagem cômica, sendo a excelente Phyllis Haver o destaque do filme. Em 1942, Ginger Rogers e Adolphe Menjou, que interpreta o advogado Billy Flynn, são os melhores em cena. Em 2002, é inegável a presença luminosa de Catherine Zeta-Jones como Velma.

The 1927 film focuses on the dramatic sacrifice of Amos, played by the handsome Hungarian Victor Varconi, and leaves Roxie as a comic character, being the excellent Phyllis Haver simply outstanding. In 1942, Ginger Rogers and Adolphe Menjou, who plays the lawyer Billy Flynn, are the best in scene. In 2002, Catherine Zeta-Jones’s luminous presence as Velma is undeniable.
Todas as versões da história são igualmente interessantes, e o recém-restaurado filme de 1927 vale muito a pena ser visto. É uma pena que existam tão poucos filmes clássicos sobre amizade entre mulheres, mas isto prova algo: amizade feminina é complexa, imprevisível e com muitos altos e baixos.

All the versions of the story are equally interesting, and the recently restored 1927 film is worth watching. It’s a pity that there are so very few classic films about female friendship, but this proves a point: female friendship is complex, unpredictable and with lots of ups and downs.

This is my contribution to the You Gotta Have Friends Blogathon, hosted by Debbie at Moon in Gemini.

domingo, 13 de novembro de 2016

O Circo / El Circo (1943)

Comparar gênios da comédia é uma boa maneira de se ter uma dimensão da popularidade e genialidade de alguns atores. Comumente, Cantinflas é comparado com Charles Chaplin, e diz-se que o próprio Carlitos considerava o comediante mexicano melhor que ele. Na recente cinebiografia Cantinflas (2014), muita licença poética é usada quando o filme mostra que foi Chaplin que mandou o script de “A Volta ao Mundo em 80 Dias” para Cantinflas, e assim o tirou do fundo do poço e o convenceu a fazer seu grande filme em Hollywood. Isso tudo provavelmente é mentira, mas há um elo ligando Chaplin e Cantinflas: o remake de “O Circo”.

Comparing comedy geniuses is a good way to have a notion of their popularity and geniality. Cantinflas is commonly compared to Charles Chaplin, and it is told that Chaplin himself considered the Mexican comedian the best of the two. In the recent biopic Cantinflas (2014), a lot of poetic license is taken when the film shows how Chaplin was the one who sent the script of “Around the World in 80 Days” to Cantinflas and convinced him to do the movie, taking Cantinflas out of depression and giving him his big break in Hollywood. All this script story is much probably invented, but there is something connecting Chaplin and Cantinflas: the remake of “The Circus”.  
Resolvi ver “El Circo” (1943) em um domingo à noite apenas porque, com 92 minutos de duração, seria uma diversão relativamente rápida. Comecei a ver, a rir, e a me dar conta de que eu já conhecia aquela história. Era como se eu estivesse tendo um déjà vu. Mas aí me lembrei de que no mundo do cinema não existem déjà vus: existem apenas remakes.

I decided to watch “El Circo” (1943) on a Sunday night only because it was a relatively quick distraction, clocking at 92 minutes. I started watching, laughing, and realized that I already knew that story. It was like having a déjà vu. But then I remembered that in the film world there are no déjà vus: there are only remakes.
No filme de 1928, Chaplin é o conhecido Vagabundo. Acusado injustamente de roubar uma carteira. Perseguido por um policial, ele foge e invade o picadeiro do circo. Ele interfere em diversos números do circo, e é aplaudido pelo público. Logo, o Vagabundo é contratado pelo dono do circo e se apaixona pela filha do dono do circo, a equilibrista (Merna Kennedy). Ele limpa jaulas e o picadeiro, ensaia com palhaços, participa dos números do mágico e dos equilibristas.

In the 1928 film, Chaplin is the well-known Tramp. He is wrongly accused of stealing a wallet. Running away from a police officer, he invades a circus presentation. He interferes with several circus numbers and the public loves him. Soon the Tramp is hired and falls in love with the circus’s owner’s daughter and bareback rider (Merna Kennedy). He cleans cages, rehearses with clowns, takes part in magic tricks and acrobatic numbers.

No filme de 1943, Cantinflas é um sapateiro anônimo. Ele vai a um show do circo, e se apaixona pela domadora de cavalos e filha do dono do circo, Rosalinda (Gloria Lynch). Ela vai à oficina dele pedir que ele conserte sua bota e, ao ir entregá-la no circo, ele acaba contratado para trabalhar lá. Ele acaba sendo trapezista, limpador de jaulas, mestre de cerimônias e equilibrista.

In the 1943 film, Cantinflas is na unnamed shoemaker. He goes to a circus presentation and falls in love with the circus’s owner’s daughter and horse tamer, Rosalinda (Gloria Lynch). She goes to his shoe shop and asks him to fix her boot. When he goes to the circus to give her the fixed boot, he is hired to work there. He works as a trapeze artist, cage cleaner, master of ceremonies and acrobat.
É particularmente interessante observar como um filme mudo é refeito como filme falado. Chaplin fez um filme recheado de gags visuais, enquanto a versão de Cantinflas está cheia de frases bem-humoradas e inesperadas, além de uma boa quantia de trocadilhos que infelizmente perdem a graça quando traduzidos. “O Circo” de Chaplin e “El Circo” de Cantinflas são, por isso, filmes com fontes de comédia diferentes, mas histórias idênticas.

It’s particularly interesting to see how a silent film is remade as a talkie. Chaplin made a film full of visual gags, while Cantinflas’s version has a lot of humorous quotes, unexpected comebacks and also a good amount of puns that, unfortunately, make no sense when translated. Chaplin’s “The Circus” and Cantinflas’s “El Circo” are movies with different comic sources, but identical plots.
“El Circo” foi produzido pela Posa Films, um pequeno estúdio e distribuidor do qual Cantinflas era um dos sócios. A Posa Filsm foi responsável por diversas paródias de filmes hollywoodianos, como “Ni Sangre Ni Arena” (1940) e “Romeo Y Julieta” (1943), que parodiavam “Sangue e Areia” (1922, remake em 1941) e “Romeu e Julieta” (1936). Ambas as paródias estrelavam Cantinflas.

“El Circo” was produced by Posa Films, a small studio and distributor owned by Cantinflas and two other partners. Posa Filsm was responsible for several parodies of Hollywood films, like “Ni Sangre Ni Arena” (1941) and “Romeo y Julieta” (1943), parodies of respectively “Blood and Sand” (1922, remade in 1941) and “Romeo and Juliet” (1936). Both these parodies starred Cantinflas.
Misturando comédia física, verbal e uma pitada de emoção, Cantinflas conseguiu fazer um excelente remake. Seus melhores filmes ainda estavam por vir, mas, para quem quer conhecer a obra do grande mexicano, “El Circo” é um ótimo ponto de partida.

Mixing physical comedy, verbal slapstick and a bit of emotion, Cantinflas could make an excellent remake. His best films were still to come but, if you want to get to know the whole body of work of the great Mexican comedian, “El Circo” is a perfect starting point.

This is my contribution to the #AtTheCircus blogathon, hosted by dear Summer at Serendipitous Anachronisms and, well… me.



Thank you to all who took part in our event! There is more to come!  

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

#AtTheCircus blogathon – Update and Entries

It has been a terrible week. Many of us, smart people, bloggers with a good heart who hoped and fought for a better world, felt deceived and hopeless. Some participants from the #AtTheCircus blogathon said they’d have a hard time concentrating and writing a review for the event.

In a TRUE democratic way, I posted a poll on Twitter and asked as many participants as I could find there about the possibility of postponing the event. Some said yes, some said no. Some bloggers thought we needed a little laughter and distraction coming from the circus. The “no postponing” won, but nobody here will be left behind. We, film bloggers, classic film bloggers in special, are like a circus: not only a group, but a family.
If your piece is already written, publish it and send us. If you use writing and movies as a healing therapy, do it and submit your entry. If you don’t feel like blogging right now, no worries: this will be just the first weekend of the #AtTheCircus blogathon. The show starts now, and the Grand Finale will be on late November or early December, on a date yet to be decided. Then, you can have time, spirit and will to write your reviews. And you can always read the entries coming this weekend and feel a little better.

And, considering I’d write about some tragic circus films, I’m changing my topic for this weekend. We’ll see later, but it’ll be fun, light… AND MEXICAN. ;)



The attractions for the first weekend are:

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